Evento Cultural: Os cadernos de Kindzu

abril 11, 2017

        O teatro "Os cadernos de Kindzu", inspirado na obra "Terra Sonâmbula", de Mia Couto, não só apresentou a história de modo bem estruturado e fluído, mas também com uma genialidade e originalidade que chocou todo o pequeno público que assitia bem de perto a obra apresentada em um espaço sem coxias ou palco, possibilitando que aqueles que estavam sentados na platéia acompanhassem toda a troca de cenários e figurinos.

                                     
Kindzu - Thiago Catarino

        A peça era encenada por apenas sete atores, sendo três mulheres e quatro homens, que alternavam seus papéis no decorrer da narrativa. Desde o início, as lágrimas nos olhos de Kindzu podiam ser percebidas pela proximidade possibilitada pelo ambiente, trazendo uma carga de emoção inicial. Com o decorrer da apresentação o talento dos artistas tornou-se cada vez mais evidente, não só pela multiplicidade artística que apresentavam, mas também pelo modo de falar e sotaque que evidenciavam a origem dos personagens. Tem-se como exemplo a atriz que mudou drasticamente suas expressões, sotaque, e face ao interpretar portuguesa e indiana, velha e jovem. Bem como a atuação de Graciana Valladares, considerada por mim o momento mais marcante da apresentação, que mostrou-se capaz de incorporar uma criança em seu corpo adulto ao descrever ao protagonista a história de sua vida, além de interpretar de forma chocante e cheia de sentimento uma cena de estupro, muito bem adaptada de modo que o assediador e a vítima não se tocavam, amenizando o teor invasivo mas mantendo a conexão entre ambos, bem como a carga emocional da situação.
        Todo o cenário era composto por objetos simples que tinham suas funções alteradas a partir do uso que os atores atribuíam à eles, bem como o bom uso da iluminação, e a trilha sonora era administrada por eles próprios, que tocavam instrumentos ao redor da cena que se passava no momento. Até o barulho do mar e o rangido da porta eram produzidos com os instrumentos simples que eles manipulavam.
                                           
Farida e Romão Pinto

        A simplicidade da produção e a ausência de grandes tecnologias para a realização da obra foram de fato um ponto positivo, responsável por aproximar o público e direcionar o foco ao enredo da obra do escritor moçambicano. Lágrimas e corações apertados eram características da maior parte daqueles que presenciaram a história do menino moçambicano em período de guerra, com certeza uma das obras mais marcantes que já assisti.



                                                    Farida - Graciana Valladares

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