Crítica - filme: Um lugar ao sol
abril 09, 2017
Não estaria a busca pela vista acabando com a própria vista?
As coberturas dos prédios poderiam ser apenas mais um andar, uma apartamento de um edifício qualquer, no entanto, ser morador de uma cobertura carrega um status perante toda a sociedade, como evidenciado na fala de uma família de entrevistados do filme, a escolha entre informar o complemento de sua residência varia entre o número do apartamento e a palavra "cobertura" diante da conotação desejada na ocasião e o nível de importância que deseja transmitir aos outros.
Dessa maneira, o filme aborda 9 moradores de coberturas do Brasil selecionados a partir de uma lista de pessoas influentes, algo que por si só já causa certo estranhamento já que remete ao fato de dinheiro gerar influência no Brasil e no mundo, levando a um perigo devido ao divergente modo de vida dessas pessoas privilegiadas em relação ao restante da população e os conflitos de interesses e necessidades entre as diferentes classes. Frases como "as balam deixam um rastro, parecem fogos de artifício", evidenciam o distanciamento dessas pessoas acerca da realidade da grande maioria do povo brasileiro e a falta de empatia diante dos problemas que não os atinge diretamente. Comentários sobre a ação do governo brasileiro que "cria uma desculpa dessa violência pelo social" leva aquele que assiste o filme a perceber uma ideia por trás das falas apresentadas, que mostra o pobre como bandido.
Além de tal ideal que circunda a maior parte dos entrevistados, pode-se perceber uma ideia geral perante a aproximação de Deus gerada pela cobertura, um lugar mais próximo do céu. Outra perspectiva que circunda tais famílias é a relação direta atribuída entre arquitetura e natureza, como se a vista privilegiada do mar e o pequeno espaço destinado para um jardim colocassem sua casa no meio de um local paradisíaco. Entretanto, a qual natureza eles se referem? Àquela da troca de tiros, da família com dez filhos chegando à praia e das dificuldades que observada de sua janela de vidro blindado ou a natureza idealizada de dentro de uma bolha social propiciada pelo dinheiro? Que natureza é essa que gera a necessidade de 50 câmeras dentro de casa e um segurança particular por andar? É uma natureza ilusória que, no fundo, todos querem pertencer.

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